10.1.15

.Rascunho antigo.

Então, novamente, reli suas palavras. Não são mais suas, na verdade, são minhas palavras. Você as deu a mim. Minhas, irreversivelmente minhas.

Com esse espelho emprestado vi nosso futuro compartilhado. Nossa vida comum. Nosso riso. Nossas rugas de sorrir.

Com aperto sufocante percebi que as letras da sua caligrafia apressada se apagaram no papel. Da memória também?

Você as rescreveria? Preencheria os espaços vazios? Salvaria a nós?

Porque, vê? Você é o único que pode fazê-lo.

5.3.14

. Sobre cafés e leites.

Se havia uma coisa que me frustrava profundamente quando criança era ser considerada “café com leite”. Para quem não sabe, café com leite é uma expressão popular para concorrente fraco, pouco hábil e que requer um desconto nas exigências do jogo para poder participar. Caçula de três irmãs e com primos de idades próximas, eu conheci muito bem a situação. Você pode até argumentar que ser café com leite não é nada de assim tão grave, que, afinal, eu recebia privilégios por ser a mais nova. Mas o problema do café com leite é que não importa o quanto você se esforçou, quão duro você jogou ou quão rigidamente você seguiu as regras: se você ganhar, o mérito nunca é seu.

Esse é o cerne do incômodo. Somos competitivos e estamos inseridos numa cultura que valoriza o sucesso como um deus. Estamos obcecados pelo desempenho. Ser “empreendedor”, “proativo”, “ousado” são apenas alguns dos jargões que circulam na conversas sobre o que é preciso para obter sucesso. Queremos vencer e, mais ainda, queremos o mérito por isso.

O que torna o cristianismo tão absurdo - loucura, como diria o apóstolo Paulo - é que a salvação é radical e impreterivelmente dependente da graça. Enquanto o islâmico reza em direção à Meca, o judeu guarda as tradições da Torá, o budista medita e faz boas obras, não há nada que o cristão possa fazer para salvar a si mesmo. Não há desempenho bom o suficiente que o faça conquistar a salvação. Nenhum número de rezas, nenhum cumprimento de rituais, nenhuma lista de obras de caridade. Porque toda a obra necessária para a salvação do cristão já foi consumada pelo único que é bom o suficiente para fazê-la. É a loucura do filho de Deus pendurado num madeiro que trouxe a salvação aos que crêem.

Quando essa verdade radical entra em conflito com o coração humano, uma das primeiras coisas necessárias para reconhecê-la é romper com o desejo de mérito. Não há espaço para o meu orgulho infantil quando eu reconheço a minha total incapacidade de ganhar. As exigências do jogo são altas demais e minha capacidade é impossivelmente pequena. Nem que houvessem todos os descontos, nem que todas as regras fossem amenizadas, não há maneira possível para que eu pudesse ganhar. A única maneira de vencer é reconhecer minha própria derrota e deixa-Lo vencer por mim. Quando olho para cruz de Cristo é que pela primeira vez eu entendo o que significa perder para ganhar. Nos resta tão somente reconhecer nossa pequenez e fragilidade diante dEle, para finalmente sermos revestidos de sua grandeza. Estou abraçando minha condição de café com leite: meu irmão maior venceu por mim.


13.1.14

- Ei, você aí!! O que você tá fazendo? Você é cego? Você não vê? Não tá vendo todas as ruínas e destruição ao seu redor? Como pode você manter essa expressão abobalhada e sorrir? Como você pode ignorar a sujeira que te cerca? Não vê os escombros e entulhos nos quais você está de pé, não vê esse pó cinza agarrado em tudo, inclusive em você? Que espécie de pervertido masoquista é você? Ou isso é algum tipo de bloqueio? Você é cego? Você não vê? 

- Ah sim, eu vejo. Mas ali, naquele cantinho, vê? O sol, ele está nascendo, ele continua a nascer. 
Então, já não será mais cinza. Me deixe sorrir. 



3.12.13

.Relicário.


Sua figura no horizonte era cansada, em cada passo parecia haver um esforço absurdo para continuar. O sol a pino, a areia fofa, o ar parado.
Mais poeira do que pele.
Mais flagelo do que roupa.
Mais corpo do que gente.
Contudo, ainda assim, era você. Mesmo por trás de toda aquela neblina que lhe cercava, reconheci o seu andar. Mesmo por trás das recém adquiridas rugas, reconheci seus olhos. E eles eram os mesmos, o mesmo calor e a mesma intensidade estava lá. O reconheceria entre milhares e milhares, reconheceria até que se passassem cem anos.
Então, corri. Corri com todas as forças que tinha, corri todas as batidas do meu acelerado coração. Quando toda a distância, e o tempo e o espaço desapareceu entre nós, você sussurrou com o resto de fôlego que tinha: vencemos.

17.11.13

.Vai.

Seguíamos caminhando em silêncio.

Ele, em um silêncio conhecedor. Já eu estava somente evitando que algum dos meus corriqueiros comentários idiotas estragasse a solenidade do momento.

Continuamos.

Eu apenas o seguia, não fazia ideia para onde íamos, mas ele parecia saber. Ele sempre sabe e isso era suficiente para me tranquilizar.  

Então, paramos. Sentamos. Ele começou a falar.

Terror, vergonha, assombro, dor, culpa, arrependimento, esperança, cura, alegria. Suas palavras trouxeram as mais profundas emoções que já senti. Suas palavras provocaram as mais poderosas revoluções que conheci. Suas palavras me desmascararam e me ergueram.
Suas palavras. De vida. Dele mesmo.

Essa tem sido a minha caminhada mais impressionante e, veja só, ela mal começou.


E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras? Lucas 24:32



29.10.13

Feridas são terrivelmente impressionantes quando você vê a dilaceração dos tecidos, o sangue coagulado, a violação da integridade.
O horror da dor nos ilude com o seu poder.
Pensamos: poderosa é a destruição.
Mas quão mais impressionante e poderosa é a cura que trabalha silenciosamente, reagrupando células, restaurando a pele e recuperando tudo sem que hajam marcas?
Tão, tão fascinante!
Ser curado me coloca numa categoria acima dos vencedores. E isso é assim, porque conheci a dor. 

21.10.13

E se eu pudesse te tocar com as minhas palavras?
E se eu pudesse correr os dedos pelo contorno do seu rosto em reconhecimento?
Se eu pudesse extirpar todo pedaço de dor no seu peito, se eu pudesse te acalentar.
Se eu pudesse injetar toda a alegria e esperança que lhes são devidas em seu coração.
Se eu pudesse e você me ouvisse.
Se ambos entendêssemos.
Então, todo o tempo, distância e espaço se reduziriam a nada.
Então, já não seriam só minhas palavras, seria eu.
(Mas então, é tarde. O tempo passou. Ele sempre passa.)
No entanto, já não importa que seja eu, importa que seja você.
A sorrir todos os risos, a abraçar todos os abraços, a amar todo o amor.
Importa que, sobretudo, o final seja feliz.