12.8.10

.Resistência.

Esses dias eu estava conversando com uns amigos que fazem kung fu (é impressão minha ou tá na moda?) e tem um lance esquisito lá de ficar batendo nos braços e nas mãos pra criar resistência. O pessoal estava compartilhando suas histórias de dor e hematomas e terminaram dizendo que ficaram mais fortes e então parou de doer. Isso me lembrou das minhas tentativas frustradas de aprender a tocar violão. Na primeira semana as pontas dos dedos da mão esquerda ficaram roxas, então formaram-se calos redondos e por fim, parou de doer. Lembro de ter ficado orgulhosa disso. Uma coisa que é bem valorizada na nossa sociedade é a noção de resistência. Você perseverar nas dificuldades até não mais serem dificuldades. Enfrentar a dor até não mais senti-la. Isso é o que diferencia os fortes dos demais. Até aí tudo bem, livros de auto-ajuda precisam vender e a idéia não é de todo ruim.
O nó da questão é que a mesma estratégia é usada pra evitar qualquer sofrimento na vida. Ficar calejado até que não seja mais capaz de sentir. Eu tenho muito medo da dessensibilização porque ela é extremamente sutil. Ela vem disfarçada na desculpa da pressa, das coisas pra fazer ou mesmo da macropolítica do sistema capitalista dominante. Ela se camufla no papinho do "eu não posso fazer nada pra mudar". No fim das contas, o que queremos mesmo é virar o rosto pro outro lado e seguir em frente. Cada vez que a dor do outro não me perturba mais, que a criança no sinal, o velhinho no ônibus ou o aleijado da esquina me passam desapercebidos, mais insensível eu sou. Um pouco mais pedra e menos carne no meu coração. Somos os mesmos discípulos água-com-açúcar perguntando a Jesus: "Mas Senhor, quem é o meu próximo?" Jesus pacientemente continua apontando para o bom Samaritano -que sabia muito bem quem era o próximo. O samaritano pouco preocupado com as conveniências sociais e frequentemente excluído delas. O samaritano provavelmente não estava considerando o homem na beira do caminho inferior, ele o olhou como igual, como próximo.


"Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;

E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;

E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.

Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?

E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira." Lucas 10:33-37

Eu quero a sensibilidade de um nervo exposto. Eu quero a compaixão que não há em mim.



4 comentários:

Anônimo disse...

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Null disse...

e apois ein...
nervo exposto. haja amor.

Anônimo disse...

Esse post me lembrou muito as discussões de Reforma psiquiátrica e Saúde mental, sério mesmo.
Normatizar e padronizar o que incomoda e perturba a "ordem" das coisas, isso parece ser hj a chave da "felicidade".
Eu só pergunto; no meio de tudo isto onde é que fica a verdadeira essência das coisas?

Eu hein..
Ass:
Friend (fã incondicional desse teu jeito de brincar com as palavras)

Lua disse...

amigos que fazem kung fu = eu e pablo? :)

é o mesmo com a violência na televisão: já está tão banal nos dias de hoje, que as pessoas acham super normal os atentados, espancamentos e mortes. tipo: "ah, será que é alguém que eu conheço? não? ah, beleza." e muda de canal.