9.8.18

.Sobre meninos e pedras.

Tenho estado às voltas procurando pelas palavras que expressem exatamente o que quero lhe dizer. Todo os dias desse último mês, desde que você deu a graça de chegar e iluminar esse mundo, tenho olhado dentro do meu coração para encontrar aquilo que desejo te contar. Há oito anos, quando conheci pela primeira vez a relação única e especial de uma tia e seus sobrinhos, comecei a tradição de dedicar a cada uma seu próprio texto de boas vindas. É uma forma de entregar um pouquinho de mim a vocês, um presente preenchido de bons desejos e afeto para a posteridade. Era de se esperar que depois de quatro vezes esse exercício fosse mais fácil, mas, não é assim. 

Você, ao seu próprio modo, é o primeiro. E também, o último. 

Olho para suas dobrinhas, seus dedinhos perfeitamente minúsculos, seus olhinhos apertados e reconheço o mesmo assombro, a mesma onda de afeto e o mesmo encantamento.Constato mais uma vez que as palavras não são suficientes para traduzir sentimentos. Lembro de uma frase de um dos meus livros favoritos que indaga: "O que são homens comparados à rochas e montanhas?"

Claro que você é ainda muito novo para saber, mas rochas e montanhas são estruturas geológicas milenares. Elas atravessam séculos sólidas e praticamente imutáveis. Suas lentas e graduais transformações são capazes de contar a história da nossa terra. Algumas são impressionantes e imensas. Algumas desafiam os homens a explorá-las. Algumas são extremamente preciosas. Quando comparadas à nossa frágil e breve existência, não parecemos mesmo grande coisa diante delas. 

Mas aí, meu pequeno, há um mistério maravilhoso que eu desejo te contar. Um mistério que esteve oculto por muitos séculos, mas que foi revelado. Esse mistério nos tornou assombrosamente especiais. O mistério é esse: a mesma voz que trouxe à existência as rochas e montanhas, não apenas nos formou a partir do pó, mas decidiu falar conosco. É por causa desses extraordinários momentos em que o Criador de todas as coisas fala conosco que nossa existência se justifica. Com nossas carcaças moles e sensíveis nos erguemos ao lado das rochas e montanhas para cumprir nossos respectivos propósitos. Um homem simples, pescador, há muitos e muitos anos ouviu essa voz e compreendeu. Porque ele compreendeu, recebeu um novo nome que marcaria para sempre a sua história. A ele foi dito: "Tu és Pedro". 

Então, quero desejar que você aprenda a reconhecer essa voz. Que você tenha seus ouvidos afinados para ouvi-la. Que você contemple as montanhas enxergando a grandeza para além delas. Que você, com resistência e sensibilidade, dedique sua vida a edificar e construir, afinal, você também é Pedro. 



9.9.17

.:Em um belo jardim:.

Enquanto Ele cuidava das multidões, elas, centenárias, assistiam  do alto monte.
Quando Ele se retirava para o seu lugar favorito, eram elas que forneciam sua sombra e frescor.
Para que Ele entrasse celebrado na cidade, elas cederam seus ramos alegremente.

Elas conheciam o significado de terem seus frutos prensados para ter o seu valor extraído, mas jamais esperariam pelo que aconteceria naquela noite. Naquela fria e solitária noite, Ele teve seu coração prensado em agonia. Naquela noite escura, sua essência foi exposta e o seu sangue regou as raízes delas. Então, em meio à dor e sofrimento, as mais belas palavras foram ouvidas. Ele disse: faça-se conforme a tua vontade. Elas testemunharam o mais extraordinário amor.

Talvez alguém possa pensar que você ainda é muito pequeninha e adorável para uma história triste assim. Mas, eu sei bem. Embora você, de fato, seja essa coisinha adorável, essa não é uma história triste. Ela é a mais feliz história. Essa mesma vontade, aceita naquela noite, atravessa os séculos e chega até você. Você também é expressão dessa vontade. Você também é prova desse extraordinário amor.

Olho para você estendendo seus raminhos e entrelaçando meu coração indefinidamente. Inesperada como as terceiras filhas o são, você chegou para completar e surpreender.  Num jardim de pinheirinhos, você nasceu Olívia e com a felicidade de ter suas irmãs para acompanhá-la pelo caminho. Meu desejo para você é que assim como suas árvores irmãs, sua vida esteja à serviço do Amor e que você O possa testemunhar sempre de perto.


5.3.14

. Sobre cafés e leites.

Se havia uma coisa que me frustrava profundamente quando criança era ser considerada “café com leite”. Para quem não sabe, café com leite é uma expressão popular para concorrente fraco, pouco hábil e que requer um desconto nas exigências do jogo para poder participar. Caçula de três irmãs e com primos de idades próximas, eu conheci muito bem a situação. Você pode até argumentar que ser café com leite não é nada de assim tão grave, que, afinal, eu recebia privilégios por ser a mais nova. Mas o problema do café com leite é que não importa o quanto você se esforçou, quão duro você jogou ou quão rigidamente você seguiu as regras: se você ganhar, o mérito nunca é seu.

Esse é o cerne do incômodo. Somos competitivos e estamos inseridos numa cultura que valoriza o sucesso como um deus. Estamos obcecados pelo desempenho. Ser “empreendedor”, “proativo”, “ousado” são apenas alguns dos jargões que circulam na conversas sobre o que é preciso para obter sucesso. Queremos vencer e, mais ainda, queremos o mérito por isso.

O que torna o cristianismo tão absurdo - loucura, como diria o apóstolo Paulo - é que a salvação é radical e impreterivelmente dependente da graça. Enquanto o islâmico reza em direção à Meca, o judeu guarda as tradições da Torá, o budista medita e faz boas obras, não há nada que o cristão possa fazer para salvar a si mesmo. Não há desempenho bom o suficiente que o faça conquistar a salvação. Nenhum número de rezas, nenhum cumprimento de rituais, nenhuma lista de obras de caridade. Porque toda a obra necessária para a salvação do cristão já foi consumada pelo único que é bom o suficiente para fazê-la. É a loucura do filho de Deus pendurado num madeiro que trouxe a salvação aos que crêem.

Quando essa verdade radical entra em conflito com o coração humano, uma das primeiras coisas necessárias para reconhecê-la é romper com o desejo de mérito. Não há espaço para o meu orgulho infantil quando eu reconheço a minha total incapacidade de ganhar. As exigências do jogo são altas demais e minha capacidade é impossivelmente pequena. Nem que houvessem todos os descontos, nem que todas as regras fossem amenizadas, não há maneira possível para que eu pudesse ganhar. A única maneira de vencer é reconhecer minha própria derrota e deixa-Lo vencer por mim. Quando olho para cruz de Cristo é que pela primeira vez eu entendo o que significa perder para ganhar. Nos resta tão somente reconhecer nossa pequenez e fragilidade diante dEle, para finalmente sermos revestidos de sua grandeza. Estou abraçando minha condição de café com leite: meu irmão maior venceu por mim.


13.1.14

- Ei, você aí!! O que você tá fazendo? Você é cego? Você não vê? Não tá vendo todas as ruínas e destruição ao seu redor? Como pode você manter essa expressão abobalhada e sorrir? Como você pode ignorar a sujeira que te cerca? Não vê os escombros e entulhos nos quais você está de pé, não vê esse pó cinza agarrado em tudo, inclusive em você? Que espécie de pervertido masoquista é você? Ou isso é algum tipo de bloqueio? Você é cego? Você não vê? 

- Ah sim, eu vejo. Mas ali, naquele cantinho, vê? O sol, ele está nascendo, ele continua a nascer. 
Então, já não será mais cinza. Me deixe sorrir. 



3.12.13

.Relicário.


Sua figura no horizonte era cansada, em cada passo parecia haver um esforço absurdo para continuar. O sol a pino, a areia fofa, o ar parado.
Mais poeira do que pele.
Mais flagelo do que roupa.
Mais corpo do que gente.
Contudo, ainda assim, era você. Mesmo por trás de toda aquela neblina que lhe cercava, reconheci o seu andar. Mesmo por trás das recém adquiridas rugas, reconheci seus olhos. E eles eram os mesmos, o mesmo calor e a mesma intensidade estava lá. O reconheceria entre milhares e milhares, reconheceria até que se passassem cem anos.
Então, corri. Corri com todas as forças que tinha, corri todas as batidas do meu acelerado coração. Quando toda a distância, e o tempo e o espaço desapareceu entre nós, você sussurrou com o resto de fôlego que tinha: vencemos.

17.11.13

.Vai.

Seguíamos caminhando em silêncio.

Ele, em um silêncio conhecedor. Já eu estava somente evitando que algum dos meus corriqueiros comentários idiotas estragasse a solenidade do momento.

Continuamos.

Eu apenas o seguia, não fazia ideia para onde íamos, mas ele parecia saber. Ele sempre sabe e isso era suficiente para me tranquilizar.  

Então, paramos. Sentamos. Ele começou a falar.

Terror, vergonha, assombro, dor, culpa, arrependimento, esperança, cura, alegria. Suas palavras trouxeram as mais profundas emoções que já senti. Suas palavras provocaram as mais poderosas revoluções que conheci. Suas palavras me desmascararam e me ergueram.
Suas palavras. De vida. Dele mesmo.

Essa tem sido a minha caminhada mais impressionante e, veja só, ela mal começou.


E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras? Lucas 24:32



29.10.13

Feridas são terrivelmente impressionantes quando você vê a dilaceração dos tecidos, o sangue coagulado, a violação da integridade.
O horror da dor nos ilude com o seu poder.
Pensamos: poderosa é a destruição.
Mas quão mais impressionante e poderosa é a cura que trabalha silenciosamente, reagrupando células, restaurando a pele e recuperando tudo sem que hajam marcas?
Tão, tão fascinante!
Ser curado me coloca numa categoria acima dos vencedores. E isso é assim, porque conheci a dor. 

21.10.13

E se eu pudesse te tocar com as minhas palavras?
E se eu pudesse correr os dedos pelo contorno do seu rosto em reconhecimento?
Se eu pudesse extirpar todo pedaço de dor no seu peito, se eu pudesse te acalentar.
Se eu pudesse injetar toda a alegria e esperança que lhes são devidas em seu coração.
Se eu pudesse e você me ouvisse.
Se ambos entendêssemos.
Então, todo o tempo, distância e espaço se reduziriam a nada.
Então, já não seriam só minhas palavras, seria eu.
(Mas então, é tarde. O tempo passou. Ele sempre passa.)
No entanto, já não importa que seja eu, importa que seja você.
A sorrir todos os risos, a abraçar todos os abraços, a amar todo o amor.
Importa que, sobretudo, o final seja feliz.

23.8.13

Era uma vez

Enquanto eu tenho você, minha adorável menininha, embrulhada em meus braços em suas tão recentes horas de vida, quero lhe contar uma história. Porque sim, essa é uma das incumbências mais legais das tias: elas contam histórias. E eu tenho a imensa honra de lhe contar a primeira delas.

Nossa história começa com duas grandes mulheres. Além de amigas próximas, elas também eram primas. Uma delas experimentou uma coisa que chamamos de  milagre. Milagres são quando coisas simplesmente extraordinárias acontecem. Durante muito tempo ela sonhou com um bebezinho que fosse seu. Muito tempo se passou e esse sonho nunca se tornou realidade. Passou-se tanto tempo que já não parecia ser possível que ela viesse a ter seu tão sonhado filho. Você ainda não sabe disso, mas as pessoas têm esse hábito de desistir e colocar a culpa no tempo. Mas aí é que está, minha pequena, esses momentos em que as coisas já não parecem possíveis são especiais. Sabe por quê?

Porque para Deus nada é impossível. Lucas 1:37

Então aquilo que parecia impossível aconteceu e ela finalmente engravidou. Certo dia, enquanto ela carregava esse bebezinho especial em sua barriga,  aquela sua prima - que também esperava seu próprio bebê -  veio visitá-la. E aquele bebezinho, ao ouvir sua tia dizendo "Olá" se alegrou. Ele se alegrou tanto que se remexeu e se remexeu e sua mãe soube que ele estava feliz. (Você também se remexia na barriga da sua mãe, mas então, era a minha vez de ficar deslumbrada e feliz.)
Acontece que ela se encheu do Espírito Santo. O Espírito Santo é uma das pessoas mais incríveis que você vai conhecer, na verdade, Ele já te conhece.
Aqueles dois menininhos, que estavam nas barrigas de suas mães, eles viriam mudar o mundo!
O garotinho que gostava de se remexer, cresceu e se tornou um dos homens mais dignos que essa terra já conheceu. Na verdade, ele foi o maior de todos. O outro bebezinho, ahh Mabel! o outro bebezinho não era como os outros. Ele era Aquele sobre qual todas as outras histórias apontavam. Ele era Aquele que iria mudar tudo permanentemente. Você O conhecerá. E eu lhe contarei todas as outras histórias das coisas extraordinárias que Ele fez e continua fazendo.

Eu lembrei dessa história e soube que eu teria que contá-la enquanto você se remexia alegremente na barriga da sua mãe. Assim como aquelas duas primas, você recebeu uma herança que não é nada menos do que gloriosa: você foi destinada a viver o extraordinário. Você, minha linda sobrinha, é extraordinária. Então eu olho para você e eu vejo o grande milagre que você é. Meu coração se aquece e meus olhos não retém as lágrimas. Eu te amo. Já era assim antes de você nascer.

Ah! Os nomes dessas duas mulheres? Uma se chamava Maria, a outra, Isabel.

27.7.13

Antes do final

Uma das coisas mais certas da vida é que o fim vai chegar. Sabemos que ele virá. Como o enunciado de uma lei irrefutável : tudo que começa, acaba. Mesmo assim, diante dessa constatação racional e lógica, nós não estamos preparados para ele. O final chega e é como uma rasteira inesperada. Estamos ali, surpreendidos, apanhados, imobilizados. O final assusta. Assusta porque nos faz pensar sobre o começo e o meio, pesar se valeu a pena toda energia desprendida nesses, questionar se valeu a pena ao menos começar. Assusta porque não sabemos o que vem depois. Assusta porque nos lembra da brevidade. Assusta porque é o que é, numa determinação absoluta: o fim. Diante dele restam o vazio, a memória, a saudade. As projeções do que um dia foi, mas não é mais.


Pare um momento comigo e pense. Se ele é tão certo, porque o evitamos? Se é tão logicamente coerente, porque continuamos nos surpreendendo diante dele? Não seria nossa negação um desejo de que o fim seja extinto? Um anseio de que venha o para sempre? Assim como minha fome é evidência de que existe algo que a satisfaz, que nesse caso é o alimento,  meu desejo pela eternidade sinaliza algo para mim. E se eu o desejo, é porque tem alguma coisa que o satisfaça. Mesmo que eu não entenda, mesmo que eu não conheça.

Então os finais- ah, os finais!- eles se tornam uma descoberta impressionante: eles são novos começos.

Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez.
Eclesiastes 3:11

10.8.12

Quando nasce uma princesa


Enquanto você dorme pequenina envolta nos seus lençóis cor de rosa, há guerra.
Seu preguiçoso sono musicado não o sabe, mas há rumores que se espalham sorrateiros.
No seu esconderijo de afeto, essas notícias não a perturbam, mas esse mundo não é digno de você.

Quem me dera, minha pequena, proteger você de tudo isso.
Quem me dera manter você tão apertadinha comigo que pudesse garantir que nenhuma feiura fosse vista por esses seus olhos bonitos.

Mas eu não posso, eu não precisaria...

Há em você a força dos gigantes. Há a delicadeza violenta do verde que insiste em irromper o concreto. A realeza está no seu nome e será marcada em seu coração. Você veio para fazer deste, um lugar melhor. Você foi destinada para vencer  como o brado que se espreita através da garganta dos valentes: Victoria!

30.12.11

. Amanhã.

Quando o ano virar, o mês acabar ou o dia nascer.
Quando a segunda vier, a grana aumentar ou o povo esquecer.
Quando o tempo sobrar e a folga chegar, então o que vai ser?


O tempo da procrastinação tem validade. Quando todas as desculpas acabam a única coisa que nos resta fazer é a dura tarefa de encarar os fatos. Vamos à eles:

- Um dígito mudado no final do ano não vai mudar sua vida.
- As coisas não vão acontecer simplesmente porque você as deseja.
-Resoluções de ano novo não duram.
- Roupas de baixo - por mais coloridas que sejam- não vão dar o tom do seu ano.

Que dia feliz quando me dei conta que a única tradição de ano novo que vale a pena manter é agradecer a Deus pelo ano que passou e entregá-Lo o próximo. Ele não está interessado nas promessas que não manterei, na boa vontade momentânea ou na minha caridade fajuta. Ele não se contenta com pouco, porque não me deu pouco. A única coisa com a qual Ele está realmente interessado é também o que tenho de mais precioso: meu coração.


"Existem coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para atrás." C. S. Lewis


20.9.11

. Fila.

Ao final do expediente, ela chega à agência do banco lotada.
Decide não se contaminar pelo clima de chateação e sorri.
Graceja com o garotinho entediado à sua frente.
Ajuda uma senhora com dificuldades no caixa eletrônico.
Guarda o lugar para um sujeito apressado que mal lhe pronunciou três palavras.
Entrega uma balinha de menta ao caixa e agradece sinceramente pelo atendimento prestado - ainda que este tenha demorado 57 minutos para acontecer.

Ela era esse tipo de pessoa incrível. Uma pena - de verdade- é que o fosse apenas em sua imaginação.

. We don't need another hero.

Sofria de covardia crônica. Um mal severo que o acometia desde a infância. Nunca rebateu um insulto, não revidava os tapas dos colegas e não lutava pelas figurinhas roubadas. Chegou a passar três horas de castigo por um delito que não cometeu, sem abrir a boca. Sua maior expressão de indignação foi arrumar as malas e fugir - para a sala!

Cresceu e os sintomas junto com ele. Fingia não ouvir as gozações na escola. Tornou-se um aluno dedicado porque não tinha coragem de tirar notas baixas. Não queria decepcionar os professores nem os pais. Descobriu os livros e passou a viver através deles. Era ele o personagem de cada história fantástica que lia, aventuras que jamais teria coragem de experimentar.
Não avançava a velocidade máxima permitida, não saía com os raros amigos e não era bom com as garotas. Sob a desculpa de compromissos inventados e prioridades fajutas, passava seus dias em solitária contemplação.

Você poderia argumentar que estou sendo dura demais em minha descrição. Que o pobre rapaz é dotado de paciência, serenidade e bons modos. Não se engane. Era um ressentido. Revidava cada um dos insultos com impropérios impronunciáveis em sua cabeça. Desenvolvia incríveis diálogos imaginados nos quais respondia com precisão cronológica as acusações sofridas. Resmungava secretamente e se imaginava tomando atitudes radicais, sendo ele a colocar os pontos finais. Seguia numa meia-vida. A máscara de passividade era um eficiente disfarce para esconder sua desesperada necessidade: coragem.


24.6.11

Meu pé, meu querido pé.

Eu tenho um péssimo hábito ( na verdade eu tenho alguns, mas qual é, não vou entregar todos eles assim!). Anos de repreensões, machucados espontâneos, ameaça de contrair verminoses e de lendas sobre crescimento dos pés não me fizeram pará-lo: eu amo andar descalça. Como para a maioria dos hábitos, ninguém tem uma explicação muito boa para mantê-los. Não sei se é por causa do geladinho do chão, de gostar de sentir onde piso ou por me sentir meio presa quando estou de sapatos. Tem a questão de que tenho pés muito sensíveis também. E por sensíveis, entenda pés com frescura. Eu não lembro de um único calçado que não tenha machucado ou feito calo neles. Desde havaianas até all star, passando pelas sapatilhas e rasteiras. Todo calçado parece fazer questão de deixar sua marquinha no companheiros de guerra aqui. Até que tem aquele período de "calejar" e o pessoal se entende. Por pessoal, entenda os pés com frescura e os calçados malvados.

Afinal, eu não posso sair por aí andando descalça.

E aqui chega a questão de que eu queria falar nesse post. Ainda que não goste muito, eu passei por um processo de socialização de tal maneira que internalizei a regra geral de que não se sai de casa sem sapato. Então, obviamente, não saio sem sapato. Nesses dias percebi que não me sinto verdadeiramente em casa enquanto não os tiro. Na minha rotina de todo dia a primeira coisa que faço é ir até meu quarto e removê-los. Meus sapatos são a minha máscara social.

Impressionante o quanto esses artifícios sociais vão se acumulando. O quanto vamos sendo moldados pelo que os outros desejam e esperam de nós. Mesmo quando nem ao menos sabemos o que realmente desejam e esperam. Erick Erickson - celebrado estudioso do desenvolvimento humano - descreve o momento da construção da identidade como esse constante olhar a partir do que o outro pensa de nós, segundo a perspectiva da alteridade.Vamos vivendo esse circo de achismos moldando nosso comportamento com base no que imaginamos que os outros imaginam de nós. Levado à última instância, esse processo pode te levar para tão longe de você que talvez se esqueça de quem é.

Jesus se recusa a ceder à pressão social. Ele frustou de todas as maneiras possíveis as expectativas dos outros. Deliberadamente ele derrubou cada um dos paradigmas mesquinhos e limitados que se faziam sobre ele. E ele só podia fazer isso porque tinha muita clareza de quem Ele era. Filho de Deus. Messias. Emanuel.

Não alheio à nossa preocupação, ele ensina aos discípulos um princípio importante: lavem os pés. O resquício do dia, a sujeira que se acumula no caminho, a poeira que adere à pele. Lavem os pés. Não dá para evitar sujar os pés, eles estão perto demais do chão. Mas é possível lavá-los. É possível deixar para lá o que se acumula durante o dia: as expectativas dos outros, os modelos do mundo, a pressão social. Que delícia permitir que o próprio Jesus faça isso por você. Que gloriosa sensação sentir a liberdade e o perdão escorrendo pelos dedos.

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Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito?

Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.

Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.

Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. João 13: 12-15

17.2.11

.Energia.

Na primeira semana na casa nova um incidente supimpa me aconteceu. Foi quando despretensiosamente eu fui ligar a tv( não, eu não tinha internet naquele tempo). Apertei o botão, e depois de um pipoco estrondoso, a próxima coisa que vi (ou não vi, na verdade) foi a casa todo num completo breu. Isso mesmo. Parece aquelas coisas de desenho animado. Eu passei um tempão repetindo "mas eu só apertei o botão!" enquanto todo mundo entre reclamações ia descobrir o motivo do apagão. Encontrado o quadro de distribuição, a energia foi religada e tudo voltou ao normal. Bom, não a tv, essa se perdeu pra sempre.
Mas aquele não foi um episódio isolado, mais tarde a gente descobriu que sempre que haviam aparelhos demais ligados na eletricidade, ocorria uma sobrecarga na rede e o disjuntor disparava, evitando algum curto-circuito (que percebam, não foi muito eficiente com a televisão). Não vou nem contar quantas vezes a gente teve que ir religar o quadro de energia, que sempre caia à noite, quando já tava todo mundo se preparando pra dormir. O agravante é que o quadro ficava do lado de fora da casa, depois de uma porta, três cadeados e dois portões de ferro. Imagina a alegria de ter que ir lá, tarde da noite, no escuro. Ê maravilha!

Mas eu não tô contando essa história toda em vão. Apesar do incômodo, o sistema de energia da nossa antiga casa tem um princípio de funcionamento muito interessante. É um mecanismo parecido com o que faz alguém com hipoglicemia desmaiar depois de muito tempo sem comer. Na ausência de glicose ou oxigênio suficiente pra alimentar os neurônios, o cérebro desliga. A pessoa desmaia para evitar danos cerebrais ou alguma coisa assim. É um mecanismo de minimização dos estragos. É segurança, afinal.

A verdade é que eu também tenho o meu próprio mecanismo contra curto-circuito. Que eu sou uma pessoa defensiva isso não é novidade e tal. Mas a mais recente epifania foi perceber que sempre que eu me deparo com alguma coisa grande demais eu desligo. Eu me dei conta de que sempre que um problema me abala muito profundamente eu simplesmente não penso nele. É automático, minha mente começa a divagar e viajar pra que eu não me foque nele. Se você me vir falando preocupada com alguma coisa, está tudo bem, eu estou falando sobre, não é tão grave assim.

Então eu percebi de que isso não é apenas uma excentricidade minha, mas é algo bem comum de se encontrar. Fazemos isso o tempo todo. A gente pode criar os mais espetaculares objetos de aumento, microscópios e telescópios, mas passar a vida toda evitando aquilo que é muito grande. É demais pro meu processamento. É além da minha capacidade. Over capacity, twiteiros. Então a gente segue evitando, deixando pra depois, procrastinando. A gente pode passar a vida toda sem fazer as mais importantes perguntas. Sem se deter no que é essencial.

Falando sobre o essencial e sobre o grande, eu penso em Deus. Ele é sem dúvida a maior coisa da qual já ouvi falar. Maior do que o universo e suas tendências infinitas. Maior do que a minha mais infinita imaginação. Deus é grande, você já ouviu dizer, mas você é capaz de entender isso? As proporções de Deus já ocuparam seus pensamentos? Talvez você costume- como eu certamente muitas vezes o fiz-colocar essas questões no stand by, no campo do "eu penso sobre isso depois". O problema é que ao contrário dEle, a gente é bem pequeno. O nosso "depois" não é tão certo assim.
Mas, ao contrário do mecanismo que costumo usar de deixar de fora a energia pra não sobrecarregar, o processo com Ele é diferente. Deus não quer diminuir a intensidade da corrente pra caber em mim, ele está aumentando minha capacidade de captação e condução. O eterno e infinito Deus se fez pequeno pra que pudesse me fazer grande nEle. Ele se fez homem, mortal, pra me fazer eterna. Se Ele é grande demais, está me fazendo crescer pra que possamos caminhar juntos.
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"Todavia, como está escrito: "Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam";mas Deus o revelou a nós por meio do Espírito. O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais profundas de Deus.Pois, quem dentre os homens conhece as coisas do homem, a não ser o espírito do homem que nele está? Da mesma forma, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus.Nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente." 1Co 2:9-12


12.1.11

.BFF.

No salão de festa abarrotado, convidados se distribuiam entre bebidas e sorrisinhos abafados. No canto do decorado ambiente, dois distintos cavalheiros conversam:

-Sujeito interessante o Antônio, não?
- Oh, com certeza.
- Quantos anos mesmo ele tá fazendo?
-43. Não tem quem diga, né?
-É verdade, bem conservado ele.
-Também, tendo a vida que leva. Sabe onde ele passou as férias no último verão? Na Grécia. É, rapaz.. em grande estilo!
Ouvi dizer que ele reservou o andar inteiro do hotel só pra ficar à vontade com a família e convidados. Eu até ia também, mas uma das crianças adoeçou de última hora, não pudemos ir.
-Ah, então vocês são bem próximos? Não conta pra ninguém cara, mas não fui convidado..
-Relaxa, numa festra grande dessas ninguém vai perceber. Festão que é festão tem que ter penetra, não é mesmo?Mas sim, Toinho e eu somos unha e carne, rapaz!
- Então que você me diz sobre ele?
- Ah ele é um cara reservado, mas também muito ambicioso, do tipo que não mede esforços pra consguir o que quer, tá me entendendo?
- Como assim?
- Ele precisou passar a perna em muita gente pra chegar onde chegou..
- Isso não te incomoda?
-Ah é assim mesmo, ué. É a lei do mais forte..
- E ele é um dos grandes..
- É sim, não é de dar trela pra qualquer um.. você não vê o Antônio perdendo tempo com gente insignificante.

Nesse momento a conversa é interrompida pelo alvoroço em torno dos parabéns. Um bolo confeitado é trazido ao centro do salão e um pequeno coro de pessoas começa a exigir a presença do aniversariante.

- Você vai precisar me desculpar, mas estão me chamando. De qualquer maneira, foi um prazer conhecê-lo. Espero ainda conseguir desfazer essas idéias que tem sobre mim.

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Seria engraçado, mas eu não estou rindo. É uma coisa triste ver alguém falar com propriedade sobre outro ou em nome de outro sem ter intimidade compatível. Veja bem, uma fã pode até saber a cor da escova de dente do ídolo, saber o signo, as histórias da infância, mas isso não quer dizer que ela realmente o conheça.



"Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer" João 15:15

"A intimidade do Senhor é para aqueles que o temem, aos quais lhes dará conhecer a sua aliança." Salmos 25:14

30.12.10

.Novo.

Todo mundo comenta o quanto o ano passou rápido.
Todo mundo reclama do comércio nessa época.
Todo mundo planeja as resoluções de ano-novo: começar a dieta, fazer exercícios, concluir o curso, conseguir uma promoção, viajar.
Todo mundo veste branco e deseja felicitações.
Todo mundo canaliza a insistente esperançazinha que cada um silenciosamente carrega, para a mudança no calendário.
Todo mundo espera receber um ano-novo em branco, como página a ser escrita e inventada. Todo Mundo.
E quando penso nele- no mundo- constato a minha inadequação, o meu não-pertencimento, a minha estranheza. Antes por causa do idealismo juvenil, hoje pela minha natureza recriada. Não sou desse mundo porque não fui feita para ele. Não sou desse ano, porque sou eterna. Meu ano só pode ser novo porque minha vida também o é. Meu ano-novo começou no natal.

Sendo assim, aqui vai meu desejo pra 2011:
Que a mais extraordinária novidade já ouvida ecoe nos seus ouvidos, mente e coração. Que seja a boa nova a referência pra sua vida. Que você tenha uma vida nova.

:)






13.11.10

. Ao soldado desconhecido.

Depois de tantos meses naquele inferno ele já não reconhecia os sons. Já não se importava com os estrondos, não distinguia mais o cheiro da ração que lhe serviam ou do odor da decomposição ao seu redor. Não diferenciava cores- não havia cor além da tríade cinza, verde e marrom. Não reconhecia os próprios membros. Braços e pernas eram massas articuladas e doloridas. A saudade de casa era uma lembrança longínqua, turva. Começara a duvidar da veracidade de sua memória e se questionava se as imagens apagadas dos doces momentos que viveu não passavam de uma ilusão da sua mente cansada. Já não sabia o dia da semana, não sabia a aparência do seu rosto, não sabia se ainda era humano.

Mas era. Humano, quero dizer. Talvez fosse algo mais. Um daqueles homens dos quais o mundo não era digno. Não foi quando carregou o colega de infantaria nas costas pelos longos 37km pedregosos que provou isso. Não foi quando atravessou a perigosa linha fronteriça para resgatar o oficial bastardo que frequentemente o humilhava. Não foi quando cedeu o seu lugar no acampamento ao Stuart para que ele pudesse ficar perto da parede e dormir. Ele provou sua honra quando diante da chance de desertar, de abandonar o martírio e desistir, voltou. Sua honra- não orgulho ou patriotismo- sua honra não caberia numa medalha, ainda que ela fosse de honra ao mérito.
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29.10.10

.(der)rota.

Há quem diga que a vida é cheia de decepções. Você não foi o bebê mais fofo, a criança mais linda, o aluno mais aplicado. Talvez não tenha sido o filho mais disciplinado, o neto mais querido ou o sobrinho mais paparicado. Provavelmente não foi o adolescente mais popular que arrebanhava suspiros apaixonados por onde passava. Você pode nunca ter tido o carisma de conquistar milhões de amigos. Talvez nunca tenha sido o atleta excepcional que todos desejavam no time ou talvez não tenha passado nos primeiros lugares do curso sem status que escolheu cursar. É possível que não seja o profissional mais criativo, sempre elogiado pelo chefe. Talvez nunca tenha conseguido aquele emprego que paga bem. Você não foi o namorado perfeito, o marido dos sonhos ou o pai que qualquer um gostaria de ter. E assim você segue, se definindo por tudo o que poderia ter sido, mas nunca foi. Segue acumulando negações. Segue convicto de todas as decepções que causou pelo caminho inclusive aquelas que causou a você mesmo. Resignado, você aceita. Nem pra sofrer você é muito bom.

Você passou a vida inteira questionando suas habilidades, sua aparência e seu jeito. Viveu insatisfeito por nunca ter alcançado o sucesso que esperava, tentou entender porque era assim e muitas vezes se revoltou-contra seus pais, sua classe econômica, seu país e contra Deus. Você só não se perguntou de onde veio o modelo.

Você obviamente duvida muito de si mesmo, mas nunca duvidou do padrão. Nunca parou para pensar de onde veio a referência que usa para mensurar seu sucesso. Não refutou os critérios. Quando as contas deram tão errado, você nunca questionou a unidade de medida.

Só um encontro com o Criador é que poderia ter o colocado em perspectiva. Ninguém o conhece tanto quanto Ele. Ele o teria contado o propósito para que você foi criado, Ele o reconciliaria Consigo mesmo. O amor dEle substituiria os esquemas errados que você aprendeu nessa sociedade torta em que vive. Você seria algo mais do que um vencedor: seria curado.

Se fosse assim, você veria o bebê esperto, a criança simpática ou o filho querido que foi. Seria grato pelo amigo de infância que mantém até hoje. Teria reparado que a garota da última fileira tinha uma queda por você. Acreditaria quando elogiassem seus olhos bonitos ou sua voz afinada. Daria valor à habilidade que tem em contar histórias, consertar coisas e cultivar o jardim. Perceberia as contribuições que fez na empresa. Você iria reparar no olhar de admiração do seu filho e no quanto sua esposa o ama.

O pior fracassado é o que não consegue entender que já venceu.