7.8.10

.carbono X tungstênio.

Eu acho que o sonho de toda criança na alfabetização (agora "primeiro ano", nunca me acostumo com essas mudanças de nomenclatura) é escrever de caneta. Era o meu, pelo menos. Eu achava a coisa mais glamurosa escrever com uma caneta esferográfica, mais ainda, escrever rápido com uma caneta esferográfica. Aquele rastro de tinta sendo deixado sem precisar fazer força, a tampa da caneta charmosamente encaixada na parte de trás... Quando eu descobri que "esferográfica" era porque tinha uma esfera pequenininha que rolava e deixava a tinta sair foi que eu fascinei de vez. Eu era inconformada de não poder escrever no meu próprio caderno (daqueles molinhos, com capas coloridas e de uma matéria só- eu também queria um caderno de capa dura, mas deixo essa parte da conversa pra outra hora) com elas na escola. Tadinha da professora, agora eu vejo que era boa vontade dela pra não deixar a gente ter um caderno todo rasurado, afinal. Mas o ponto aqui é que há uma lógica que sustenta a proibição. Crianças pequenas devem usar o lápis grafite ao invés da caneta pelo simples fatos de que elas podem apagar. Diante dos nossos deslizes de iniciante o generoso grafite nos permite recomeçar de novo e de novo e mais uma vez.

Foi quando cresci que reconheci o valor do velho companheiro grafite (e nem me façam piadinhas com jogador de futebol que a copa já acabou). Minha lapiseira 0.7 2B- sempre favorecendo minha letra esquisita e permitindo que eu erre à vontade pra depois corrigir - e eu temos uma história juntas. Eu sou uma daquelas pessoas que sempre perguntam se pode usar grafite na hora da prova, só pra garantir. Mas, agora a proibição é reversa. Na maioria das vezes não pode. Isso porque a caneta sabe como é.. é mais permanente. E aqui chegamos ao ponto central desse post.

Quando eu criei o Rascunhos (como eu chamo esse blog, o nome é "os rascunhos sempre vão pro lixo?" como você já deve ter percebido) há 6 anos atrás, a idéia era poder compartilhar das coisas que eu penso e creio, das histórias que eu crio e das que me criaram, das minhas personagens inventadas e das personas reais que encontro por aí- como você também já deve ter percebido. Mas o que eu não sei se você percebeu também é a enorme insegurança e boa dose de autocrítica escondidas nesse título. Se eu mantenho as coisas que escrevo no status de "rascunho" eu não me responsabilizo pelo resultado final, não preciso me preocupar com nenhuma crítica porque veja só: é só um rascunho, eu posso fazer de novo! A garota que pensou nesse nome é aquela que ainda insiste no uso do grafite, aquela que evita assumir as rasuras da tinta.

Já faz algum tempo que eu tenho me deparado com essa inadequação. Minha relação com o que escrevo mudou, eu mudei. O que eu escrevo aqui e entrego a vocês em pequenas porções não são rascunhos, não são textos incompletos, me deixe confessar aqui. Mesmo considerando as falhas que existem neles, eu não seria capaz de alterar nada. Eles são como são porque são produto de quem eu sou. A obra que o Senhor tem realizado na minha vida me constrange com a Sua imutabilidade. O Senhor é bom e a sua misericórdia dura para sempre. Ele é eterno e me faz ver que sou eterna também, ainda que meus dias de peregrina nessa terra estejam contados. Davi no salmo 129 diz que " todos os meus dias foram escritos no teu livro quando nenhum deles havia ainda", assim como ele, eu estou maravilhada com o desenrolar da história que Deus escreveu para cada um de nós, com a narrativa que está sendo contada na qual somos nós os protagonistas. Eu não sei quanto a você, mas eu me rendi ao maravilhoso enredo do meu autor- porque sim, essa história você escolhe. Dito isso tudo, comunico a você fiel leitor- desrespeitado enormemente pela falta de continuidade das postagens- ou visitante perdido na internet que esse blog mudou. Sim, esse blog passou a se chamar "dias contados", não porque tenha se tornado um diarinho, mas porque eu quero compartilhar com você a viagem com um número limitado de dias, quero lhe contar o que acontece pelo caminho, quero lhe falar sobre as aventuras na estrada e das belas paisagens, mas, sobretudo, quero lhe falar sobre o destino final. Eu estou assumindo a caneta.

;)

1.4.10

."Passagem".

Esses dias eu me peguei pensando sobre mudanças. Essa é uma reflexão que todo mundo já deve ter feito pelo menos uma vez na vida. Eu estive pensando no quanto eu mudei nos últimos anos, fiquei lembrando das coisas que eu falava, das opiniões que tinha e até do meu gosto. Mas o grande desafio mesmo é atribuir a que se deve essa mudança. Talvez eu possa atribuir à faculdade- e as pessoas com quem se convive lá, ou talvez ao amadurecimento natural que decorre com os anos (eu já não sou uma garotinha, afinal), mas a minha hipótese favorita é a de que eu estou sendo moldada. Como obra incompleta que sou, falta-me o acabamento.
Adoraria dizer que ocorreram apenas boas mudanças,(não sei se já confessei aqui, mas meu grande plano de vida é me tornar uma pessoa melhor) mas eu sei que perdi algumas coisas no caminho. Perdi coisas que não posso recuperar. Minha esperança é que eu possa ocupar o vazio que deixaram.
Pois bem, nesse clima de páscoa e reflexão, eu quero deixar um texto que uma menina escreveu tempos atrás. A data no blog dela é de 2005, salvo os problemas de redação, eu compartilho com a visão dela aqui:
"Quando pequena, essa era uma época bastante feliz. "Coelhinho da páscoa o que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim. Coelhinho da páscoa que cor eles são? Azul,amarelo e vermelho também...." A decoração dos supermercados e a seção de ovos de chocolate faziam com que eu ficasse bem excitada. No colégio, sempre tinha aqueles desenhos temáticos para pintar e máscara de coelho para fazer. E era só.
Eu cresci um pouco e alguém me disse que a páscoa era um dia triste. "Por quê?" (eu era um daquelas que sempre perguntava...) "Porque Cristo morreu pelos nossos pecados." "Hein?" Agora tinha que ser um momento de reflexão. Nada de carne vermelha. Os desenhos agora eram cinzentos e tinham uma cruz.
Hoje. Algum tempo se passou desde então. Não poderia deixar de dizer o que sinto. É um misto de puro júbilo com gratidão o que tenho aqui dentro. Uma alegria explode no meu coração! Não foi ningém que me falou. Não fui convecida. Não... Eu Creio!
Eu posso imaginar aquela fria manhã de domingo. Três mulheres caminham até o túmulo prestar o seu último favor. A escuridão paira no ar e a esperança se foi. As cenas da dor e sofrimento Dele passam com flashes em suas mentes. O luto e o pranto são como pesadas capas que as encobrem. "Ele se foi." Alguns passos mais adiante elas chegam ao destino. "O que é isso? A pedra foi removida?!" Tentam buscar uma explicação lógica para aquilo. "O levaram... roubaram-no..." Então lhes aparece o anjo. "Aquele a quem procuram não está mais dentre os mortos..." O que seria aquilo? Seria possível? "Quem é aqule homem ali? Algum jardineiro? Deve ter sido ele quem O levou!" Jesus olha para Maria Madalena. "Não pode ser..." "Maria!" "Mestre!!!" Posso sentir o turbilhão em seu coração. "Ele está vivo!!! VIVO!!!"
Minha vontade é fazer o mesmo que elas fizeram, sair gritando para o mundo todo ouvir: "Ele vive! Ele vive!" Jesus ressucitou! O sepulcro está vazio. Nem mesmo a morte foi capaz de detê-lo. Podem me chamar de fanática. Eu não me importo. Sou completamente apaixonada. Religião alguma, instituição humana alguma, filosofia alguma pode me dar o que eu tenho. EU O AMO! Ele me amou primeiro.
É isso. Estou imensamente feliz..."
Feliz Páscoa, pessoas. ;)

20.2.10

.Débora.

Mesmo depois das coisas incríveis que vimos cheias de histórias e tesouros secretos, a melhor surpresa ainda estava por vir. Não era um museu ou castelo antigo- em certas circunstâncias talvez pudesse ser chamada assim também- mas, era uma pessoa. Seus olhinhos apertados enquanto sorria e a vasta cabeleira branca deveriam tê-la denunciado, mas na hora nem imaginei que tipo de pessoa era ela. Eu era uma figurante, um arroz, sabe? Estava ali só acompanhando o grande encontro da minha avó com sua amiga que não via há muitos anos. Estava empregando a minha estratégia de falar só o necessário e sorrir simpaticamente enquanto observava quieta no meu lugar. Foi então que eu percebi. Sua casa com ares de refúgio, os porta-retratos espalhados pelos móveis, a família que ela exibia com orgulho. Mas foi quando olhei em seus olhos que vi. Aquele brilho misterioso de quem já viveu tantas coisas, as palavras ponderadas de quem encontrou a sabedoria, a paixão com que fala de sua fé.
Quando perguntada como se conservava tão ativa no auge de seus 85 anos, ela sorriu. São 85 anos de "juventude acumulada". Quando ela ergueu sua voz e a fez reverberar por toda a sala, não pude duvidar da canção que entoava : "Eu vejo Deus em toda parte sim, até dentro de mim, em todos os órgãos meus. Eu vejo Deus na imensidão do mar, aonde quer que eu vá, eu vejo Deus." Então, eu também pude ver. Nas doces despedidas nada mais puder dizer do que: obrigada.

1.2.10

.Travessia.

Com as passagens compradas, mala meticulosamente arrumada e relógio acertado, ela trazia aquela inigualável ansiedade pré-viagem. Você conhece a sensação. Aquele friozinho na barriga, aquela demora para as horas finalmente passarem... A mesma ansiedade de um garotinho que conta os dias até o esperado aniversário, ou de um funcionário que espera as férias. O fato é que ela estava ali, prestes a realizar seu grande sonho. Repassava pela milésima vez a lista de coisas a fazer antes de partir. As listas mentais que fazia só eram interrompidas pelas fantásticas imagens de seu destino. Tudo era tão lindo, cartões-postais não faziam justiça a beleza do lugar. Ela imaginava como seria conhecer todos aqueles lugares, visitar tudo aquilo de que apenas tinha ouvido falar- ficava cada vez mais animada e mal era capaz de se conter.
Anos mais tarde, quando perguntada como conseguiu suportar tanto tempo para finalmente chegar ao lugar dos seus sonhos, se os 40 anos esperando foram miseráveis como se supunha, ela respondeu:
"Oh, claro que não! A viagem se torna mais fácil quando você tem em vista o destino a que se dirige. Além do mais, a viagem me preparou para o que eu iria encontrar, desfrutei de paisagens incríveis pelo caminho, conheci companheiros de jornada e outros se juntaram a nós. Tudo isso só me fez ficar ainda mais maravilhada quando finalmente cheguei!"

29.12.09

.10.

Então, chegamos a mais um fim. Chegamos a mais um começo. Espero de coração que ele não seja apenas mais um.
Desejo um ano inédito, ainda que você seja o mesmo.
Paciência para os momentos de espera.
Tolerância para as ignorâncias que encontrar.
Ousadia diante dos desafios, perseverança nas dificuldades.
Que você saiba celebrar com intesidade as boas notícias.
Que você não menospreze as pequenas lições.
Que você tenha a maestria de relevar.
Que você tenha a força de resistir.
Que você tenha a incrível habilidade de um ourives pra reconhecer o que é, de fato, precioso.

Desejo tudo isso a mim e também a você. Sobretudo, desejo um coração tratável para que Deus opere tudo isso em/através de nós.

=) Feliz 2010.

8.11.09

.primeira pessoal do plural.

Eu não sou essas palavras que você lê.

Não sou a voz na minha cabeça, nem as memórias que carrego.

Não sou as coisas que eu faço, nem as que deixo que fazer.

Não sou minha aparência, meu peso ou meu corte de cabelo.

Não sou meus traços de personalidade, o meu QI .

Não sou minhas idéias. Não sou meus argumentos. Não sou meus defeitos.

Não sou as injustiças que cometo, ou os julgamentos que faço.

Não sou minha risada, meu cheiro, ou minhas manias.

Não sou as pessoas que amo- quem me dera fosse.


Porque essas coisas são todas parte de mim. Sou a soma e a multiplicação de todas elas. Ainda assim, elas não me definem. Porque eu não sou quem estou sendo, sou quem eu posso ser. Assim como dicionários não são encalços para camas, como folhas não são marca-páginas e pedras não são pesos de papel. Eu sou aquilo para que fui feita. Eu sou o potencial. Sozinha eu não sou, só posso ser quando Somos.
“Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora pois permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.”
1Co 13:12-13

30.10.09

- Qual o DDI pra Oz mesmo?

- Alô?
- (...)
- É, eu sei que a minha voz tá estranha, eu tava dormindo. É bom mesmo que seja urgente.
- (...)
- Hum, sei.
- (...)
- Com a amiga ou com a psicóloga?
- (...)
- Então, "fale-me mais sobre isso".
- (...)
- Eu ainda não entendo qual é o problema. Como é que você pode querer algo que nunca teve? Como é que você sabe que é bom?
- (...)
- Tá,você quer correr o risco.
- (...)
- Humrum, eu sei, eu sei. Não vou mentir pra você... É bom.
- (...)
- Não, você está ciente das partes ruins, não está?
- (...)
- Tem. Aquelas em que você chora. Ei, isso ia fazer um estrago em você...
- (...)
- Não dá pra se contentar com a sua amígdala artificial, não?
- (...)
- Ok, me desculpe. Eu estou de mal-humor.
- (...)
- Ôu, Brilhante. Eu não sei o que lhe dizer. Eu preciso do meu, e mesmo assim ele não serviria pra você.
- (...)
- Eu acho que você deveria passar uma temporada nesse mundo aqui. Você se sairia muito bem e ninguém repararia na sua deficiência. Hollywood te adora, você não viu o Ironman? E mesmo todo mundo por aqui tendo coração, parece que tá meio fora de moda usá-lo.
- (...)
- É sério. Você é mais gentil do que muitos deles.
- (...)
- Estamos combinados, então.
- (...)
- Sim, você vai precisar contribuir com a conta de energia.
- (...)
- Mando sim.
- (...)
- Beijo, tchau!


Foto by Nadine

24.10.09

.Relicário.

Sua figura no horizonte era cansada,em cada passo parecia haver um esforço absurdo para continuar. O sol a pino, a areia fofa, o ar parado.
Mais poeira do que pele.
Mais flagelo do que roupa.
Mais corpo do que gente.
Contudo, ainda assim, era você. Mesmo por trás de toda aquela neblina que lhe cercava, reconheci o seu andar. Mesmo por trás das recém adquiridas rugas, reconheci seus olhos. E eles eram os mesmos, o mesmo calor e a mesma intensidade estava lá. O reconheceria entre milhares e milhares, reconheceria até que se passassem cem anos.
Então corri, corri com todas as forças que tinha, corri todas as batidas do meu acelerado coração. Quando toda a distância, e o tempo e o espaço desapareceu entre nós, você sussurrou com o resto de fôlego que tinha: vencemos.

23.10.09

.uma gota de limão.

Com opulenta convicção seus dedos erguem-se em arrogância, a língua afiada ansiosa para fazer aquilo que faz de melhor. Aqueles tamborilam sob a mesa, enquanto esta estala na impaciente espera para que o outro se cale, cedendo finalmente espaço para o seu brilhantismo contido se expressar (porque aos seus próprios olhos é isso o que é: brilhante!). Dedos e língua em ação, falta-lhe as idéias. Mas, isso não é exatamente um problema, já que basta rebater as do outro impiedosamente. Não importa se talvez o infeliz tivesse com alguma razão, não interessa se ele tenha trazido algo que nunca pensou antes, nem se dava ao trabalho de ouvir. O fato é que as suas próprias idéias eram melhores. Sua posição era sempre a mais sábia. Sua opinião, indiscutível. Esqueceu-se de um pormenor importante: "melhor" é sempre um adjetivo (ou advérbio) comparativo, e comparar implica necessariamente em tomar conhecimento do outro. (Mas pff, isso só sou eu aqui falando). E se você caro leitor, achar que não tem nada a aprender com alguém assim, engano seu. Não há nada mais fácil de se fazer para parecer esperto do que abrir a boca e: criticar

3.4.09

.Sem amor, eu nada seria.

O garoto estava perdido no meio de uma multidão confusa. As pessoas estavam passando apressadamente, o ritmo com que andavam dava a impressão de que cada uma delas sabia exatamente o que fazer e aonde ir, mas a impressão acabava ao olhar mais atentamente para seus rostos: olhares perdidos.O fato é que o menino continuava ali, paralisado na sua falta de direção. Tentou falar com alguém que passava, apenas para perceber que era como se ele não existisse. Repetiu a ação e de novo fracassou. Resolveu caminhar, imitando as pessoas, terminou circulando o quarteirão e voltando ao mesmo lugar.E agora? Seria ele alguém? Tentou lembrar de alguma coisa sobre quem era, sobre sua história, sobre seu lar.. nada. Parado ali se deu conta que não ele não fazia a menor diferença naquele lugar, não havia ninguém pra reivindicar por ele, ele não era nada pra absolutamente ninguém. E chorou. Como garotinho que era, se dobrou sobre seus joelhos e chorou. Chorou até adormecer o sono enfadado das lágrimas.
(Ao acordar, estava confortavelmente instalado numa cama macia. Vestido com roupas limpas, tomado banho. Olhou pro lado e viu um chocolate quente com torradas fumaçando e com um cheiro delicioso.)
-Onde eu estou?
-Você está no seu quarto, querido.
-Quem eu sou?
-Você teve um pesadelo? Você é meu filhinho.
-Essas coisas são minhas?
-Claro que são! Eu preparei tudo pra você. Agora venha cá, tenho outra coisa pra te dar.
- (envolvido pelos braços mornos) Como se chama isso? É bom!
- Abraço, mas também pode chamar de o centro do meu amor.
________________________________________________________
"Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti." Isaías 49:15

17.3.09

.Zoe.

Fecho meus olhos e suspiro.
Sentindo o pulsar de cada batida de meu velho coração.
O sangue percorrendo minhas veias, transportando oxigênio pra cada célula.
Eu estou viva.

Meus olhos foram abertos e eu suspiro.
Meu velho coração é substituído.
O Sangue derramado, transporta vida pra cada célula.
Eu estou finalmente, verdadeiramente viva.





"Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida."2Co 5:4

3.3.09

.Sinestesia.

Vamos fazer um exercício de imaginação, ok?

Sabe aquela sensação que se tem de manhã, quando você acorda, está fazendo um pouco de frio lá fora e o seu lençol está quentinho com o calor do seu corpo, e você está ali completamente envolvido por uma completa sensação de conforto?

Imagine essa sensação por dentro.

Sabe quando você está ali com seu brigadeiro coberto de chocolate granulado e você vai comendo devagar, deixando o chocolate derreter na língua e grudar no céu da boca e você sente o doce se dissolvendo lentamente?

Imagine isso acontecendo com o seu coração.

Sabe quando você tá andando descalço na areia no sol de meio dia, e você dá aquela corridinha saltitada até que finalmente mergulha os pés na água fria?

Imagine esse alívio na sua alma.
_____________________________________________

O amor de Deus é real. É concreto. Ainda que a minha percepção dele mude, Ele permanece inabalado. Eu não posso barganhar ou oferecer nada em troca. O propósito da minha existência é me envolver completamente nesse amor. Mergulhar nele, deixar que ele me envolva, que entre em mim e preencha todos os espaços, até que eu já não seja a mesma pessoa.. Até que eu seja capaz de amar você, até que eu seja capaz de amar a pessoa que senta do meu lado no ônibus, até que eu seja capaz de amar aquele homenzinho maltrapilho ali do outro lado da rua, até que eu seja capaz de amar as crianças de Ruanda, até que..


"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nEle crê, não pereça, mas tenha a vida eterna." João 3:16

5.2.09

"uma flor roxa que..

Sentada no seu antigo balanço na pracinha que brincava desde a infância, ela mantinha os olhos fixos na descoberta que segurava em suas delicadas mãos: uma flor. Banal e piegas, não se importava na figura que poderia estar bancando para os traseuntes por ali. Estava tão completamente absorta na linha que seus pensamentos tinham tomado que não tinha atenção suficiente para pensar na aparência.

A questão ia se enveredando por dentro dela e deixava suas sombrancelhas levemente franzidas de preocupação. Acreditava sim, não era uma pessoa cética de forma alguma, e procurava sempre enxergar as coisas de maneira positiva. Mas a dúvida que carregava era se de repente a imagem que fazia não era um tanto distorcida, se todos os romances literários e filmes açucarados que assistia não estariam afetando as suas idéias. Pergunatava-se ainda se ela mesma seria capaz de tal sentimento. Ou ainda, se era merecedora dele. Se perguntava se haveria alguém que fosse tão absurdamente bom ao ponto de gostar dela da maneira como era. Sem visar benefícios, sem impressões erradas, sem ilusões, apenas por quem ela era. Perguntava-se se esse alguém existia e ainda, como esse alguém se interessaria por alguém como ela? Suspirou.


A propósito, a flor que segurava era um amor-perfeito.

12.1.09

.Com a palavra: Crisálida.

(Na coletiva de imprensa dezenas de jornalistas e seus microfones se empurravam por um lugar melhor de onde pudessem captar as imagens e palavras de Crisálida.)

"Eu me alegro muito com todas essas declarações de vocês, sobre a minha beleza e esplendor. Obrigada! Se vocês não tivessem olhos tão bondosos não seriam capazes de me ver bonita. Mas há uma parcela dessa história que não é tão conhecida e vcs nem seriam capazes de imaginar como eu era. Resolvi contar-lhes toda a verdade hoje. Muito bem,prontos?

Houve um tempo em que eu era um monstro.

(Exclamações de espanto se fizeram ouvir pelo salão).
Sim, uma térrivel largata. Egoísta e desesperada por consumir, a única coisa que pensava era em mim mesma. Ocupava toda a minha existência em buscar coisas pra suprirem as minhas necessidades, folhas e mais folhas, eu nunca me contentava. Foi então que iniciei um novo e surpreendente processo que mudou drásticamente a minha vida.

(Os microfones se aproximaram ainda mais, pessoas se inclinavam pra frente,
silêncio absoluto.)

Cansada da minha vida medíocre me acomodei a uma folha qualquer..então eu descobri que era capaz de produzir uma espécie de fio..como uma seda... De alguma maneira eu sabia que aquilo era o certo a ser feito. Me envolvi completamente com aquilo que teci e cobri a minha vergonha. (Olhos arregalados.)
Sim, estive lá, envolta num denso casulo. Oh! Vocês não imaginam como foi doloroso. A sensação claustrofóbica de estar ali dentro.. de não saber quanto tempo duraria aquela agonia.. Então todo o meu corpo começou a mudar. Começou a se tranformar em algo que eu não sabia o quê. E doeu. Mesmo aquela inesquecível dor não foi capaz e turvar a confortante sensação que eu carregava aqui dentro: eu estava mudando. Tudo o que eu mais queria: eu estava mudando. Eu mal podia me conter: eu estava mudando.

(Rostos perplexos e queixos caídos..)

Depois de tudo isso, que levou um tempo incontável, meu casulo pareceu apertado demais, muito pequeno pra minha nova eu. Era a hora de sair dele. Esse foi o ponto crítico da situação. Óh, não existem palavras que possam expressar como foi difícil, de quanta dor.. Eu fiz um esforço inestimado, tirei forças que nem mesmo sabia que tinha.. e mesmo assim, parecia não haver sucesso. Naquele momento em que estava metade presa e metade livre... eu pensei que ia morrer. E eu confesso a vocês que já não me importava, desde que morresse livre. Com uma raiva irracional contra aquele casulo que me prendia fiz meu último esforço, arrisquei tudo...

(Crisálida precisou de um momento pra recuperar-se das lembranças dolorosas..)

Foi então que finalmente me tornei quem sou. Aquele foi o mais extraordinário momento de minha vida. Eu mal podia acreditar na criatura que me tornei. Cada descoberta das minhas novas potencialidades era uma festa. Descobri que tinha asas, que elas eram lindas.. que eu podia voar!!!

( Nesse momento Crisálida bate suavemente suas asas num voo gracioso pelo salão. Todos ficam abasbacados.)

O mais importante do que eu tenho a lhes dizer nessa noite, e que eu espero que vocês tenham percebido ao longo da minha história, é que mudanças são possíveis!!!

(Diante de Crisálida todos obviamente assentiram em concordância- estava ali diante deles uma prova incontestável de uma mudança.)

Ahahaha. Mas entendam, por favor, não estou apregoando a idéia publicitária de que "força de vontade e determinação são suficientes!" Ora, convenhamos, eu era uma largata! Muito embora meu desejo de mudança e motivação tenham sido imprescendíveis, eu jamais poderia mudar por mim mesma. Reconheçamos que houve em todo tempo alguém maior do que eu capaz de realizar essa mudança. Obrigada a todos, uma boa noite!

(Enquanto Crisálida saia silenciosamente da coletiva, todos na sala se mantiveram em silenciosa reflexão, olhos marejados e lenços sendo levados ao rosto. Uma pergunta foi surgindo em cada coração como uma onda se espalhando: como obter essa transformação também?)

25.12.08

leseiras.com

Excepcionamente hoje- nesse dia de natal- temos uma convidada especial aqui no rascunhos: Nadine!

- Então, Na, o que você tem a dizer?
-Muitas coisaas...
-Huuum, que interessante. O que mais especificamente?
-Estão vagas...
-( não se intimide, Na, o pessoal aqui é da paz..) Nada mais preciso?
-(Nadine com cara feia pra mim)
- Er.. então.. tá calor, né?
- Que mudança radical de assunto. Isso é sinônimo de que não tem nada pra dizer..é sério, quando a pessoa fala do tempo.
- Pois é, eu acho que a gente tá sem assunto.
-Eu não acredito que tu vai postar isso não.
-É, pra você ver. Quando eu digo que tô sem postar porque tô sem criatividade o pessoal não acredita.
-(Nadine faz sons estranhos) Eu juro que não acredito que vc vai postar isso..
-É. Um post de natal merecia ser mais bacana,né?
-Também acho.
-Mas vamos deixar esse aqui do jeito que tá mesmo que depois eu penso numa coisa mais inspiradora.
- Os teus leitores não merecem isso e a tua mãe tá chamando.
-É, bora almoçar.
- Hehehe.


(essa é uma conversa ficcional, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência)

14.12.08

.Sobre novas coisas.

- Surpesa!!!
- Ahahahaha!! Eu já devia imaginar.
- E você imaginou. Você estava ansiosa pela nossa tradicional conversa de fim-de-ano.
- É verdade, confesso.
- Então, o que você tem a me dizer?
- Mudou de pergunta, né? Grandes progressos por aqui..
- É que você já me respondeu a principal, então resolvi deixar a questão mais aberta..
-Ah, tá.
- Prefere uma pergunta mais específica?
- Prefiro.
- O que você tem aprendido?
- Viiiixe, a resposta daria um livro.
- Mesmo?
- Er..não, porque tem aquela história de que a gente só aprende mesmo quando coloca em prática, né?
- É, mas antes da prática tem as mudanças de dentro.
- Aham. Quanto a essas eu fico feliz. Conheci umas revoluções poderosas aqui dentro.
- Hum. Coisas novas?
- Novas e eternas.
- Gosto disso.
- Eu também.
- Então, foi um bom ano, não foi?
- Foi sim. Mesmo, mesmo.
- E você, como sempre, espera por mais.
- Falando assim, pareço ambiciosa..
- Não quando se é uma sonhadora.
- Aha.
-Fico feliz em reencontrá-la, nos veremos de novo. Prometo.
- Eu é que fico feliz. Por falar em feliz: Feliz ano novo!
- Feliz!!!

22.7.08

.Firmamento.

Sabia que era uma idéia absurda aquela de entrar para um curso de perna de pau, mas lá estava ela negociando com seu medo de altura. As instruções eram simples: equilíbrio, concentração e.. segurança. Cadê a coragem?

Calçou o chinelo acima das longas varetas.Foi se erguendo devagar com muita ajuda, quase não largou a mão do instrutor. Repensou pela milionésima vez do porquê dessa insanidade. Frio na barriga, suor, não podia tremer. Conseguiu se sustentar, enfim.

Mal acreditava que estava a um metro e meio do chão. Respirou fundo. Uôôôu! O mundo era tão diferente lá de cima, ela era tão diferente lá de cima até mesmo o ar que respirava parecia outro.Descobriu uma sensação nova: tinha medo e queria mais.

Ela entendeu que tinha sido destinada às alturas. Ela precisava ir mais alto, e mais alto, e mais alto. O propósito da sua vida estava diante de seus olhos: ir além. Ela queria chegar mais perto. E, iria.





"Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos." Isaías 55:9

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9.7.08

.Amora.

Ela é linda, e o que é mais fascinante, da sua própria maneira. Eu sorri e ela veio até mim, eu a segurei tão despropositadamente... tão desengonçada. Não estava pensando, só estendi os braços e a segurei. E lá estava ela, divertida, com seus pequenos olhos brilhantes. Então, ela reclinou a cabeça no meu colo e ficou lá quietinha. Desmoronei. Nunca fui uma dessas pessoas aficionadas por bebês, nem sou de ficar falando com aquele jeito engraçado que todo mundo fala diante das crianças pequenas. Nunca me percebi com essa história de instinto materno, eu acho que eu sempre me imaginei com netos, e não com filhos. Mas ela estava lá, quase dormindo nos meus braços. Eu podia sentir o seu corpinho e a sua voz vibrando tentando falar alguma coisa ininteligível.


Foi então que eu entendi. Que quando se tem algo realmente precioso todo o resto desaparece. É por isso que o amor fragiliza as pessoas, ele nos coloca em segundo plano, porque o amor seria capaz de entregar a própria vida para proteger a quem se ama. É por isso que o amor fortalece as pessoas, ele não recorre à razão, ele nos diz como agir independente das circunstâncias que se apresentam.



Sim, eu quero poder ouvir. Eu quero ver. Sobretudo, sentir.

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6.7.08

Dos rascunhos que nunca irão pro lixo.

Noite passada eu tive um sonho. Não foi um dos sonhos bizarros com golfinhos mutantes que tem asas de borboletas (é, eu tenho sonhos bizarros), mas foi um daqueles sonhos quem mexem com você. Muito bem, eu já não lembro com riqueza de detalhes, mas vou contar.


Eu estava falando. Sim, como numa espécie de pregação. Eu estava preocupada em transmitir uma mensagem e em me fazer entender, eu estava me esforçando pra convencer alguém de alguma coisa. Eu lembro da sensação de ficar bem satisfeita com aquilo que eu falava e do pensamento "hey, isso faz bastante sentido!". Aí eu comecei a me dar conta que as palavras não eram minhas. Não era eu quem as estava produzindo, eu só as falava. E quem estava me ouvindo? Pra quem eu estava falando? Eu. Aquelas palavras estavam endereçadas a mim. E como era bom ouvi-las. Eu não lembro de todas as coisas que foram ditas, mas restou uma frase na minha memória.

“Deus nos criou pra ter uma vida de excelência, não uma vida medíocre”.


Olha, eu sempre fui adepta do discurso de que as palavras tem poder. Sério mesmo, olhe em volta e perceba como as palavras estão fazendo uma diferença enorme. Eu acho que todo mundo já pôde experimentar de como uma palavra pode ser capaz de alegrar o seu coração, ou de te fazer rir, ou de provocar uma indignação profunda, ou de gerar uma confusão enorme. Eu também acredito que você já experimentou o arrependimento das palavras não ditas... e dessas você não esquece. Mas, o que eu estou te dizendo, meu amigo, é que há palavras em específico que mudam o seu rumo. Elas marcam quem você é, porque elas fazem você repensar. Algumas palavras podem te mudar pra sempre.


Hoje eu ouvi a Palavra. Ela foi entrando e percorrendo os lugares, provocando mudanças aqui dentro. Por causa dela, eu estou aqui compartilhando essas outras tantas palavras com você.


Então eu estou me dispondo. Se você quiser trocar palavras comigo, eu estou aqui. Prometo que não deixarei de falar, novamente. Não faça cerimônias, não comigo. Estou disposta a ouvir você.



"6
Então disse eu: Ah, Senhor DEUS! Eis que não sei falar; porque ainda sou um menino.
7
Mas o SENHOR me disse: Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar, falarás.
8
Não temas diante deles; porque estou contigo para te livrar, diz o SENHOR.
9
E estendeu o SENHOR a sua mão, e tocou-me na boca; e disse-me o SENHOR: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca;"
Jeremias 1
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A propósito, voltei. =)